Sobre ser a estrela principal do seu parto
Houve uma época em que, mais próximos da natureza, nós seguíamos os ciclos naturais da vida e da morte. Dentro desses ciclos, éramos regidos pelas nossas necessidades e sabíamos escutar nosso corpo. Com a submissão da natureza à tecnologia fomos nos apartando do nosso lado selvagem e, mais que isso, deixamos de escutar nosso corpo, suas necessidades, seus instintos, seus alarmes e seus pedidos de socorro.
Nas selvas de pedra que construímos, o nosso corpo é exigido sem que muitas vezes se ofereça a ele como contrapartida subsídios de sobrevivência, relaxamento e recarregamento de energias. Tudo isso é para falar de como as mulheres perderam o contato consigo mesmas nas sociedades altamente tecnológicas: o amor e o sexo é ensinado por revistas tão coloridas quanto superficiais, os processos de envelhecimento são vistos como os inimigos a serem combatidos a qualquer preço e custo, o hospital e a clínica são os lugares da vida e da morte, sem o conforto e a intimidade do seu lar e dos seus entes queridos.
O que sabemos sobre parir? Que dói muito, animalescamente.
O que sabemos sobre o modo como fomos colocados no mundo?
Quantas mães e pais contam às filhas e filhos sobre seus nascimentos?
O que se sabe de um parto que não seja a dor maquiada das novelas e filmes?
Sabemos apenas que dói, que dói muito. E a nossa sociedade não tolera a dor. Não tolera dor nenhuma: nem a dor da alma e nem a dor do corpo. Analgésicos são oferecidos alegremente pelo mercado: não sofra!!! É melhor se entupir de remédios ou agendar convenientemente a data do seu parto do que prestar atenção a você mesmo.
Antes de engravidar eu tinha muito medo do parto normal, tinha medo da dor, tinha medo de não estar cercada por uma equipe médica competente para me auxiliar no caso de eu não suportar ou não conseguir. Mas desde que engravidei não cogitei por nenhum momento em agendar meu parto. Intuitivamente, percebi que na hora "h" o meu corpo saberá o que fazer, basta eu me despir dos medos e das minhas máscaras sociais e culturais e me deixar ser bicho de novo. Mas ainda assim, eu ainda me sentia insegura em não estar acompanhada de médicos, anestesistas e seus aparelhos e medicações. Com quase cinco meses de gestação, esse medo passou também.
Não temo mais a dor e não acho que vou precisar de um aparato hospitalar. Não desprezo esse auxílio, desde que necessário, mas quero eu mesma ser a estrela principal do meu parto e dividir esse estrelato com Bolo e com nosso bebê.
Quero que nosso filho chegue ao mundo da maneira menos traumática possível, que seja tão natural e normal quanto foi o ato de amor que o gerou. Não quero que ele seja arrancado do meu útero por um profissional para quem seremos mais uma estatística. Sou uma gestante e serei uma parturiente, nunca uma paciente.
Acho que a forma do parto não define a mãe e acho que cesáreas foram criadas para salvar vidas, mas quero viver intensamente esse momento tão íntimo e quero ter poder sobre o meu parto. É simples.
Ontem mudei de obstetra. O médico que agora nos acompanha apóia as casas de parto, o parto humanizado e também o parto em casa. Falou pra mim sobre a resistência da classe médica em mudar procedimentos. Quando eu perguntei se ele fazia partos em casa ele disse que "eu não faço partos, quem faz o parto é você. Eu faço cesarianas". Me explicou que nem todo parto pode ser em casa,que é importante que tudo esteja bem para a mãe, para o bebê e para o pai também. Achei isso ótimo, porque o pai, nesse processo, sempre é escanteado, deixado de fora. Enfim foi esclarecedor, motivador e super-crítico a respeito do papel do médico e da medicina.
Dr. Jorge Kunh foi indicado por Luciana Mafra que teve Ana na Casa de Parto de Sapopemba. Acho que se toda mulher tivesse acesso a um profissional que a encorajasse a ter parto normal e dismistificasse o "bicho-papão" que foi criado em torno dele as "desnecesáreas" diminuiriam drasticamente e só seriam usadas nos casos em que realmente fossem necessárias: casos de urgência, de risco comprovado para a mãe ou para o bebê. Existe um mito em torno da "hospitalização" e "medicalização" como se fossem a grande panacéia. Acho que informação e desmistificação devem ser palavras-chave.
Escrito por Micheliny às 15h07
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